Arroz mais caro já motivou revoltas, causou mortes e derrubou líderes pelo mundo

Por Redação em 11/09/2020 às 19:27:42

Encarecimento de um alimento essencial, existência de uma populaĆ§Ć£o economicamente fragilizada e manifestaƧƵes violentas foram problemas no JapĆ£o, Libéria e Haiti. Sede de uma empresa produtora de arroz, Suzuki Shoten, queimada por manifestantes na cidade Kobe em 1918

ReproduĆ§Ć£o

O aumento abusivo no preƧo do arroz, um dos alimentos mais consumidos no país, atingiu com forƧa uma populaĆ§Ć£o empobrecida, gerando fome e uma revolta generalizada contra o governo.

O trecho tem semelhanƧas com o momento pelo qual o Brasil estƔ passando hoje, em que o arroz, junto com alguns outros alimentos essenciais, vem pesando cada vez mais no bolso dos brasileiros.

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A frase, no entanto, se refere ao JapĆ£o de 1918, ano em que o preƧo do produto causou uma grave crise e protestos por todo o país, levando à renúncia do entĆ£o primeiro-ministro japonês.

Em 1979, na Libéria, aconteceu uma história parecida. Dezenas de manifestantes que protestavam contra uma proposta de alta do arroz foram mortos pelas forƧas nacionais, desencadeando uma série de atos de revolta pelo país. Mais recentemente, multidƵes de haitianos foram às ruas protestar contra um salto nos preƧos desse e de outros itens bĆ”sicos, como feijĆ£o e óleo de cozinha.

Alguns dos aspectos que se repetem em todos esses casos sĆ£o o encarecimento de um alimento essencial, a existência de uma populaĆ§Ć£o economicamente fragilizada e manifestaƧƵes violentas, que acabam por derrubar governantes.

Desde o início do ano, apesar dos baixos índices de inflaĆ§Ć£o, o arroz acumula uma alta de quase 20% no Brasil, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Outros itens como feijĆ£o e cebola, também diariamente presentes na mesa do brasileiro, chegaram a subir ainda mais.

Embora pesquisadores apontem que o contexto social brasileiro é bem diferente e que revoltas como as que ocorreram no passado em outros países sĆ£o muito improvĆ”veis por aqui, o incômodo do presidente Jair Bolsonaro com a situaĆ§Ć£o se tornou evidente.

Se, quando a crise estourou, o mandatĆ”rio tratou de pedir "sacrifício" e "patriotismo" aos donos de supermercados para nĆ£o repassar o aumento ao consumidor, recentemente o governo anunciou que iria zerar o imposto de importaĆ§Ć£o do produto até o fim do ano, numa tentativa de conter a alta dos preƧos e também uma possível reaĆ§Ć£o negativa da populaĆ§Ć£o.

Tropas japonesas desembarcando em Vladivostok, na Rússia, em 11 de agosto de 1918.

Getty Images

Revolta no JapĆ£o

No período final da 1ĀŖ Guerra Mundial, em 1918, o Exército Imperial Japonês enviou mais de 70 mil tropas para a Sibéria para lutar ao lado da FranƧa, GrĆ£-Bretanha e do Exército Branco russo contra os bolcheviques. Para alimentar tanta gente em campo de batalha, o governo teve que lanƧar mĆ£o de grandes remessas de arroz.

"Prevendo que o governo aumentaria a encomenda, os comerciantes de arroz comeƧaram a estocar o produto para forƧar uma alta no preƧo, de forma a vendê-lo mais caro", explica a especialista em cultura e história do JapĆ£o Cristiane Sato.

Só que a estratégia acabou desabastecendo a populaĆ§Ć£o nacional e levando às alturas o preƧo do arroz no país, que jĆ” lidava com uma inflaĆ§Ć£o em alta devido à participaĆ§Ć£o na guerra.

"Em 1918, 20 kg de arroz chegavam a custar quase o salĆ”rio inteiro de um funcionĆ”rio público", conta Sato.

Na época, o arroz era o principal item da alimentaĆ§Ć£o japonesa e representava 80% do consumido regularmente pela populaĆ§Ć£o em geral.

Em julho de 1918, quando a situaĆ§Ć£o ia se tornando insustentĆ”vel, os jornais noticiaram uma notícia curiosa, ocorrida num vilarejo da cidadezinha costeira de Toyama.

LĆ” um grupo de esposas de pescadores tentou impedir a exportaĆ§Ć£o de grĆ£os como forma de protesto contra os altos preƧos, provocando um tumulto com os comerciantes da regiĆ£o.

"É importante ressaltar o papel das mulheres nesses eventos. Eram donas de casa que estavam sofrendo com o aumento dos preƧos, da mesma forma que estĆ” acontecendo com muitas no Brasil hoje", aponta Célia Sakurai, doutora em ciências sociais pela Unicamp e autora de livros sobre a história da imigraĆ§Ć£o japonesa no Brasil.

GraƧas à imprensa, a notícia se espalhou rapidamente, inspirando vĆ”rias outras manifestaƧƵes pelo país, inclusive em algumas das cidades mais importantes, como Tóquio e Osaka.

Ao tomar proporƧƵes maiores, a revolta atraiu representantes de grupos ideológicos recentemente importados do pensamento ocidental, como anarquistas, nacionalistas, liberais e socialistas, aglutinando uma série de outras reivindicaƧƵes sociais. O movimento nĆ£o era mais só pelo preƧo do arroz.

Segundo a pesquisadora e doutora em ciências sociais pela PUC Luíza Uehara, o JapĆ£o tinha entĆ£o uma grande populaĆ§Ć£o de miserĆ”veis, tanto nas fĆ”bricas das grandes cidades quanto nas zonas rurais, condiĆ§Ć£o que vinha gerando protestos frequentes havia mais de uma década.

"Foi inclusive por causa dessa miséria que os japoneses comeƧaram a imigrar para o Brasil", conta Uehara.

"Para se ter uma ideia, a propaganda para atrair os japoneses dizia que aqui eles conseguiriam comer arroz todo dia, coisa que lĆ” nem sempre era possível".

Nas ruas, o povo incendiou depósitos de arroz e atacou postos de polícia, o que gerou uma repressĆ£o severa das forƧas do governo, que temia ver uma nova revoluĆ§Ć£o russa florescendo no próprio quintal. "Foram milhares de presos, muitos deles submetidos a castigos corporais", diz a pesquisadora.

Depois de cerca de um mês de protestos, quando os ventos da revolta finalmente amainaram, o primeiro-ministro Terauchi Masatake anunciou sua renúncia, tomando para si a responsabilidade pelos distúrbios à ordem pública.

Aos poucos, com uma intervenĆ§Ć£o do governo, o preƧo do arroz voltou a um patamar aceitĆ”vel.

"O governo passou a fazer um estoque preventivo do arroz, caso houvesse escassez do produto", conta Silvio Miyazaki, professor do Programa de Pós-GraduaĆ§Ć£o em Língua, Literatura e Cultura Japonesa da USP.

O político foi substituído no cargo por Hara Takashi, de perfil moderado, dando início a uma breve flexibilizaĆ§Ć£o do regime, que, apesar de democrĆ”tico, era fortemente conservador e autoritĆ”rio.

Logo no início da década de 1920, essa moderaĆ§Ć£o perdeu lugar para o crescimento do militarismo e da opressĆ£o, que levariam o país à Segunda Guerra Mundial.

Golpe na Libéria

Mais de 60 anos depois desses eventos, a Libéria, um pequeno país na costa oeste africana originalmente criado para abrigar escravos americanos libertos, passou por uma convulsĆ£o social parecida.

No dia 14 de abril de 1979, manifestantes marcharam contra uma proposta do governo de aumentar o preƧo do arroz, visando tornar seu cultivo viĆ”vel no país.

O protesto tinha orientaĆ§Ć£o pacífica, mas alguns dos milhares de participantes comeƧaram a saquear estabelecimentos locais. A polícia e o exército, por sua vez, reagiram a tiros, matando dezenas de pessoas e ferindo algumas centenas.

"ForƧas do governo perpetraram abusos como assassinatos, tortura e prisĆ£o arbitrĆ”ria de civis. Além disso, hĆ” relatos de membros das forƧas liberianas tomando parte em saques ao lado de manifestantes", diz um relatório da organizaĆ§Ć£o The Advocates for Human Rights sobre o caso.

Um dos principais motivos para a fúria popular era o fato de o presidente do país, William R. Tolbert, possuir fazendas de arroz e se beneficiar diretamente do aumento.

"Corria a ideia de que a intenĆ§Ć£o era favorecer uma elite que importava o produto ou os plantadores, dos quais fazia parte a família do presidente", conta o professor de história da Ɓfrica da UFRJ ClĆ”udio Costa Pinheiro.

Segundo uma reportagem do New York Times da época, no dia seguinte ao protesto Tolbert caracterizou os líderes do movimento como "homens maus e satĆ¢nicos", que só queriam "causar caos e desordem no país com o objetivo de derrubar o governo".

Em pouco tempo, de acordo com Pinheiro, se proliferaram pela Libéria protestos cada vez mais violentos contra o governo, esgarƧando o quadro político do país.

Às reivindicaƧƵes alimentares, uniu-se a revolta contra uma estrutura antiga, que mantinha no poder uma elite liberiana privilegiada, de descendência americana.

Em 1980, um ano após as manifestaƧƵes originais, o governo foi derrubado por um golpe de Estado, e Tolbert assassinado.

Em foto de 1980, o presidente da Libéria, Samuel K. Doe (óculos escuros), aparece cercado por membros de seu Conselho de RedenĆ§Ć£o dos Povos

Getty Images

Tumulto no Haiti

A populaĆ§Ć£o do Haiti foi outra que se rebelou contra o aumento excessivo do valor do arroz, jĆ” no século atual.

Em 2008, atingidos por uma crise global que triplicou o preƧo do produto no mercado internacional, haitianos irados foram às ruas em manifestaƧƵes que tiveram resultados violentos.

O aumento do preƧo, que chegou a dobrar o valor do produto no país, teve ainda mais impacto devido à pobreza e ao baixo nível de renda do povo haitiano, cuja maior parte sobrevivia com um salĆ”rio de menos de dois dólares por dia, segundo informaƧƵes do Banco Mundial.

Em abril, a populaĆ§Ć£o faminta da cidade de Okay entrou em conflito com agentes de paz das NaƧƵes Unidas.

Os protestos alcanƧaram outras cidades do país, onde os manifestantes passaram a apedrejar policiais e saquear lojas. O saldo final foi de seis mortos e vĆ”rios feridos em todo o país.

Os protestos só acabaram quando o governo anunciou um plano para reduzir o preƧo do arroz e senadores removeram o primeiro-ministro Jacques-Édouard Alexis do cargo, dez dias após o início dos tumultos.

Em pronunciamento para a TV à época, o entĆ£o presidente haitiano René Préval disse que "o arroz importado se tornou caro e nossa produĆ§Ć£o nacional estĆ” em ruínas. Por isso, subsidiar a importaĆ§Ć£o de comida nĆ£o é a resposta".

A principal medida anunciada pelo governo para acalmar os manifestantes, porém, foi um subsídio ao valor do produto importado, derrubando seu preƧo em mais de 15%.

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Fonte: G1

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