Arroz e óleo mais caros: entenda por que a inflação dos alimentos disparou no país

Por Redação em 09/09/2020 às 09:30:10

Dólar alto tem incentivado as exporta√ß√Ķes, diminuindo a oferta interna, enquanto auxílio emergencial estimula consumo, afirmam especialistas. Dentre os produtos com avan√ßo de pre√ßo, arroz e óleo de soja s√£o destaques de agosto. Supermercado em Natal, no Rio Grande do Norte

Pedro Vitorino

O pre√ßo dos alimentos foi destaque para a alta de 0,24% infla√ß√£o oficial do país em agosto, divulgada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) nesta quarta-feira (9).

O Índice de Pre√ßos para o Consumidor Amplo (IPCA) subiu 2,44% em 12 meses enquanto a infla√ß√£o dos alimentos subiu 8,83% no período.

Esta alta n√£o tem apenas um alimento respons√°vel, pois a maioria deles est√° com pre√ßos recordes no campo. Porém, dois chamaram a aten√ß√£o nos últimos dias: o arroz, com valoriza√ß√£o de 19,2% no ano e o óleo de soja, que subiu 18,6% no período (leia mais abaixo).

De acordo com economistas ouvidos pelo G1, dois fatores explicam a alta no período:

Dólar alto: que incentiva os produtores a aumentarem as exporta√ß√Ķes, reduzindo, assim, a oferta de produtos no mercado interno;

Auxílio emergencial: benefício do governo federal estimulou o aumento do consumo. Este recurso foi direcionado, em grande parte, para a popula√ß√£o mais pobre do país, que têm uma cesta de compras formada, em sua maioria, por produtos b√°sicos, como alimentos.

Com dólar muito valorizado em rela√ß√£o ao real, a venda ao exterior se torna uma forte concorrente da indústria brasileira pela compra de produtos do campo. Ao mesmo tempo, deixa o custo de produ√ß√£o da agropecu√°ria mais alto, j√° que boa parte dos insumos s√£o cotados na moeda americana.

Enquanto as exporta√ß√Ķes totais do Brasil caíram 6,8% nos últimos 12 meses até julho, o agronegócio vendeu 3,8% mais, segundo o Ministério da Agricultura. A participa√ß√£o do setor na balan√ßa comercial do período subiu de 42,3% para 47,1%. A China responde por mais de 30% das compras.

Com isso, na pr√°tica, para que as empresas brasileiras consigam manter os alimentos aqui, é necess√°rio pagar mais em reais, e este valor acaba sendo revertido ao consumidor.

Além disso, com uma boa quantidade de produtos sendo vendida a outros países, a oferta interna de mercadorias diminuiu, incentivando a eleva√ß√£o de pre√ßos.

Na outra ponta, a renda gerada pelo auxílio emergencial de R$ 600 nos últimos meses permitiu que o repasse dos pre√ßos nas gôndolas dos supermercados fosse feito.

"Se n√£o houvesse recurso, n√£o haveria demanda que sustentasse o aumento de pre√ßos. De onde vem essa renda? De uma política fiscal expansionista, ou seja, do auxílio emergencial", explica o economista Felippe Serigati.

"Estima-se que houve mais de 60 milh√Ķes de benefici√°rios, em uma sociedade de 210 milh√Ķes de pessoas, é expressivo. Essa transferência de renda conseguiu garantir que os domicílios tivessem recursos para adquirir esses alimentos", acrescenta.

Mesmo assim, a alta est√° chegando a um nível preocupante, tanto que a Associa√ß√£o Brasileira dos Supermercados (Abras) disse, na última semana, que procurou o governo federal para "buscar solu√ß√Ķes" sobre os reajustes dos alimentos.

"O setor supermercadista tem sofrido forte press√£o de aumento nos pre√ßos de forma generalizada repassados pelas indústrias e fornecedores. Itens como arroz, feij√£o, leite, carne e óleo de soja com aumentos significativos", afirma a Abras.

Ciente do problema, o governo brasileiro monitora a situa√ß√£o e garante que n√£o haver√° desabastecimento no país.

O presidente Jair Bolsonaro pediu aos comerciantes para que as margens de lucro de produtos como o arroz fiquem "próximas de zero". O presidente acrescentou que n√£o pretende tabelar pre√ßos.

"Tenho apelado para eles, ninguém vai usar a caneta Bic para tabelar nada, n√£o existe tabelamento, mas pedindo para eles que o lucro desses produtos essenciais nos supermercados seja próximo de zero. Acredito que a nova safra come√ßa a ser colhida em dezembro, janeiro, de arroz em especial, a tendência é normalizar o pre√ßo", disse o presidente.

E para quem espera pre√ßos menores nos próximos meses, a expectativa dos especialistas n√£o é otimista. Como estamos em período de entressafra, é difícil que os valores caiam tanto até o início de 2021, pelo menos (leia mais abaixo).

Os 'vil√Ķes'

Não existe apenas um responsável pela alta expressiva dos alimentos neste ano. Segundo levantamento do Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada da USP (Cepea), diversos produtos registram preços recordes no campo.

Produtos essenciais do card√°pio dos brasileiros est√£o mais caros

O prato feito do brasileiro, com arroz, feij√£o e carnes, est√° mais caro desde o início do ano.

"O arroz acumula alta de 19,25% no ano e o feijão, dependendo do tipo e da região, já tem inflação acima dos 30%. O feijão preto, muito consumido no Rio de Janeiro, acumula alta de 28,92% no ano e o feijão carioca, de 12,12%", destaca Pedro Kislanov, gerente da pesquisa do IBGE.

Porém, dois alimentos da cesta b√°sica est√£o chamando a aten√ß√£o dos consumidores da cidade nas últimas semanas:

Arroz;

Óleo de soja.

A preocupa√ß√£o maior é em rela√ß√£o ao primeiro item. Nessa ter√ßa-feira (8), a ministra da Agricultura, Tereza Cristina, afirmou que n√£o vai faltar arroz no mercado.

"O arroz n√£o vai faltar. Agora ele est√° alto, mas nós vamos fazer ele baixar, se Deus quiser vamos ter uma supersafra no ano que vem", declarou Tereza.

A Confedera√ß√£o da Agricultura e Pecu√°ria do Brasil (CNA) afirma que o produtor rural n√£o é o respons√°vel pelo aumento nos supermercados e que a alta se refere à recupera√ß√£o de pre√ßos desses alimentos no mercado agropecu√°rio.

"Esses aumentos têm sido acompanhados pela alta no custo de produ√ß√£o, o que demonstra que o produtor n√£o est√° tirando vantagem sobre os outros elos da cadeia", diz o superintendente técnico da CNA, Bruno Lucchi.

Arroz 'salgado'

A pandemia e as exporta√ß√Ķes fizeram com que o pre√ßo arroz subisse muito nos últimos tempos. O primeiro movimento de grande procura ocorreu no início do período de isolamento social, quando a busca nos supermercados por alimentos b√°sicos para serem estocados disparou.

Com isso, a indústria viu a necessidade de ir às compras, e os agricultores seguraram a venda do produto, enxergando aí uma oportunidade de valorizar o alimento, que vinha perdendo valor nos últimos anos.

De acordo com o Cepea, o preço pago no campo pelo arroz subiu 63% em agosto deste ano na comparação com o ano passado, um recorde. O IBGE afirma que o preço do alimento ao consumidor já subiu 19,2% no ano.

Pre√ßo do arroz praticado no campo mostra um descolamento de valores de 2020 com os últimos anos

Cepea

Se os brasileiros queriam estocar alimentos, houve um movimento semelhante no exterior. E as exporta√ß√Ķes de arroz em agosto cresceram 98% na compara√ß√£o com o mesmo mês do ano passado.

"O Brasil foi o único grande produtor agropecu√°rio que conseguiu abastecer o mundo sem problemas durante a pandemia. Diversos grandes players n√£o conseguiram abastecer o mercado internacional, o Brasil sim", explica Serigati.

Com isso, o pre√ßo do arroz ao consumidor, medido pelo Índice de Pre√ßo ao Atacado (IPA) da Funda√ß√£o Getúlio Vargas (FGV), j√° subiu 22,8% nos 12 meses encerrados em agosto.

Somente no mês passado, o avan√ßo do valor arroz foi de 11,54% no atacado, enquanto nas gôndolas dos supermercados, o aumento foi de 3,35%.

"Essa diferen√ßa significa que ainda existe espa√ßo para que o pre√ßo do arroz suba mais nos próximos meses", diz André Braz, pesquisador do Instituto Brasileiro de Economia (Ibre).

Porto Alegre lidera alta do preço do arroz entre as capitais brasileiras, diz pesquisa

Em São Paulo, um saco de 5 kg de arroz está custando mais de R$ 30, sendo que o preço costumava girar em torno dos R$ 15.

Esse aumento recente fez a associa√ß√£o que representa as indústrias do setor (Abiarroz) reclamar, no fim de agosto, da dificuldade de compra do alimento, alegando que ele est√° concentrado na m√£o de poucos produtores.

"Nos últimos 25 dias, observou-se uma alta de mais de 30% no custo da matéria-prima, além do reajuste j√° ocorrido em decorrência do aumento da demanda no início da pandemia. Os pre√ßos praticados ultrapassaram em 290% o valor do pre√ßo mínimo estabelecido pelo governo federal", diz a Abiarroz, em nota.

Outro fator que ajuda neste movimento de alta é a recorrente diminui√ß√£o da √°rea plantada de arroz no país. Da safra 2011/2012 até a safra 2019/2020, houve uma queda de mais de 30%.

Depois de anos de retra√ß√£o, o bom cen√°rio de pre√ßos deve fazer com que a √°rea plantada cres√ßa 12,1% na próxima safra, que dever√° ser colhida no come√ßo de 2021, alcan√ßando uma produ√ß√£o 7,2% maior, segundo a Companhia Nacional de Abastecimento (Conab).

A Conab estima que o Brasil dever√° comprar 1,1 milh√£o de toneladas de arroz do exterior nesta safra, isso representa cerca de 10% do que o país consome (10,8 milh√Ķes de toneladas). As importa√ß√Ķes do alimento cresceram 28,4% em agosto deste ano na compara√ß√£o com 2019.

No fim de agosto, o governo cogitou zerar a Tarifa Externa Comum (TEC) de 12% sobre a importa√ß√£o de arroz de países fora do Mercosul. A ideia era tentar diminuir os pre√ßos praticados no país.

Porém, no dia 1¬ļ de setembro, a C√Ęmara Setorial do Arroz, do Ministério da Agricultura, que envolve produtores e indústrias, votou contra a medida.

No encontro, agricultores e empresários se comprometeram a evitar desabastecimento, de acordo com a Federação dos Arrozeiros (Federarroz) do Rio Grande do Sul, principal estado produtor do grão.

Porém, o governo ainda n√£o abandonou de vez a ideia e pensa em uma cota de importa√ß√£o com tarifa zero.

Fritura mais cara

Outro item b√°sico que viu seu valor disparar foi o óleo de soja. O pre√ßo do produto subiu nas 17 capitais pesquisadas pelo Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese), com altas expressivas no Rio de Janeiro (+22,4) e em Porto Alegre (+21,1%).

Em S√£o Paulo, o litro, que custava cerca de R$ 3,50, é encontrado acima dos R$ 6. O IBGE afirma que o óleo de soja j√° subiu 18,6% no ano.

Como o próprio nome diz, o óleo é um derivado da soja, que é o produto mais exportado pelo Brasil. De janeiro a agosto, as vendas do gr√£o ao exterior j√° superaram o total que foi vendido nos 12 meses de 2019.

Pre√ßo do óleo de soja tem alta por causa da valoriza√ß√£o do gr√£o no mercado

Foram negociadas 75,1 milh√Ķes de toneladas neste ano ante 56,2 milh√Ķes de toneladas do mesmo período do ano passado. Em todo 2019, o país negociou 74 milh√Ķes de toneladas.

O Brasil produziu nesta temporada pouco mais de 120 milh√Ķes de toneladas. Ou seja, os 45 milh√Ķes de toneladas "disponíveis" est√£o em disputa entre exportadores e indústrias brasileiras.

Isso faz com que o grão e seus derivados venham alcançando preços recordes no mercado. Segundo o Cepea, a saca de 60 kg de soja está custando mais de R$ 120 no campo, valor recorde.

Ainda de acordo com o centro da USP, os pre√ßos do óleo de soja na cidade de S√£o Paulo subiram expressivos 24,9% no mês e 57,5% no ano.

Pre√ßo do óleo de soja também est√° muito acima do praticado nos últimos anos

Cepea

E até mesmo o gr√£o que nem foi colhido é disputado. Pela primeira vez na história, agricultores j√° est√£o vendendo a soja que vai ser colhida só em 2022.

Além disso, as importa√ß√Ķes cresceram neste ano e devem bater recorde. Uma ironia para o país que é maior produtor e exportador global do gr√£o.

Efeito auxílio emergencial

O auxílio emergencial alcan√ßou uma grande massa de brasileiros. O programa social lan√ßado durante a pandemia do novo coronavírus j√° beneficiou 67,2 milh√Ķes de pessoas, cerca de um ter√ßo da popula√ß√£o do país.

E, de acordo com o economista Daniel Duque, que também é pesquisador da FGV, o auxílio fez com que o percentual do total de brasileiros na pobreza extrema caísse de 6,5%, em 2019, para 2,5% em 2020.

"Nos nossos melhores anos, como em 2014, por exemplo, essa taxa foi de 4%", diz Duque.

"Quando a gente olha para a massa de rendimentos dos brasileiros (soma de todos os ganhos), 10% dela vem hoje do auxílio. Isso significa que a cada R$ 10 na economia, R$ 1,00 vem do benefício. E o gasto dessa popula√ß√£o mais pobre é, basicamente, com alimentos. Ent√£o é de esperar que os pre√ßos aumentem mesmo", conclui.

Próximos meses

N√£o h√°, hoje, nada que indique que os pre√ßos dos alimentos v√£o cair substancialmente, dizem economistas. Um dos motivos é que o país est√° no período de entressafra das principais culturas, e a produ√ß√£o come√ßa apenas no fim deste mês, com colheita prevista para o início de 2021.

Outro ponto é que o auxílio emergencial foi prorrogado até o fim do ano. Mesmo com um valor menor, de R$ 300 e com mais restri√ß√Ķes, essa fonte de renda vai continuar pressionando os pre√ßos dos alimentos.

"Em outras palavras, se alguém estiver esperando pre√ßos menores, eu n√£o contaria com essa possibilidade. Estejam preparados para caminharem até o final em 2020 (com pre√ßos mais altos)", resume Felippe Serigati.

André Braz, do Ibre, prevê que a infla√ß√£o de alimentos, medida pelo Índice de Pre√ßos ao Consumidor (IPC) da FGV, deve acumular alta entre 8,5% e 9% nos 12 meses encerrados em dezembro de 2020. Varia√ß√£o bem acima do IPC total projetado para o período, que é de um avan√ßo de 2,5%.

Governo publica regras de pagamentos das parcelas extras do auxílio emergencial

Segundo ele, a disparada de pre√ßos dos alimentos tem sido puxada, principalmente, pelo valor das carnes bovina, suína e de frango, que vêm aumento desde o segundo semestre de 2019.

"O pre√ßo das commodities soja e milho est√° em alta nas bolsas de valores internacionais e, apesar de a gente n√£o as consumir diretamente, elas alimentam os animais que nós comemos", explica Braz.

"Soma-se a esse cen√°rio uma demanda chinesa crescente por alimentos e, com o dólar alto, os produtores brasileiros est√£o preferindo vender para fora, o que reduz, consequentemente, a oferta interna e colabora para a expans√£o de pre√ßos".

Para Braz, "a única chance" de o Brasil ter uma infla√ß√£o de alimentos mais baixa este ano j√° foi descartada. "O dólar precisaria ceder um pouco mais, mas tudo indica que ele vai se estabilizar em torno de R$ 5,30 este ano".

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Fonte: G1

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