Do arroz ao boi, produtos do agro brasileiro registram preços recordes

Por Redação em 01/09/2020 às 12:04:57

Demanda chinesa, dólar e aumento do consumo em casa tem feito alimentos superarem as m√°ximas históricas no mercado. Embarque de soja no porto de Paranagu√°, no Paran√°

F√°bio Scremim/APPA

Os pre√ßos das principais commodities agrícolas do Brasil, como soja, milho, arroz, café, leite e boi, est√£o atingido patamares recordes, com o c√Ęmbio e a forte demanda puxando esta alta.

As m√°ximas históricas nominais n√£o consideram a infla√ß√£o, mas alguns produtos efetivamente est√£o nos maiores níveis de pre√ßos, j√° levando em conta valores deflacionados, como é o caso do boi, bezerro, suíno, arroz e leite, conforme levantamentos do Centro de Estudos Avan√ßados em Economia Aplicada (Cepea), da Esalq/USP.

A soja, principal produto do agronegócio brasileiro, est√° perto de atingir um recorde de todos os tempos, segundo dados do Cepea, com o produto batendo R$ 137,76 por saca no porto de Paranagu√° (PR) na segunda-feira (31), menos de R$ 2 abaixo dos cerca de R$ 139 vistos em 2012 --considerando j√° o valor deflacionado.

Por que produtores j√° est√£o vendendo a soja que só vai ser colhida em 2022

No caso da soja do Brasil, maior produtor e exportador global, cuja safra foi histórica 2020 mas ao mesmo tempo dragada pela forte demanda da China, a alta no pre√ßo é de mais de 50% na compara√ß√£o com a mesma data do ano passado.

O apetite chinês, que fez o país exportar volumes recordes nos primeiros sete meses do ano, mostra também como a alta dos pre√ßos est√° relacionada à demanda, com um c√Ęmbio na maior parte do ano acima de R$ 5 por dólar ajudando a impulsionar embarques brasileiros por tornar os produtos nacionais ainda mais competitivos.

"A taxa de cambio levou a um deslocamento de pre√ßos, isso vai acontecer para todos os produtos, e isso fez com que o produto tivesse um pre√ßo mais baixo (para quem compra do Brasil) e favoreceu a exporta√ß√£o, enquanto encarece a importa√ß√£o (pelo Brasil)", disse o professor da Esalq/USP e especialista do Cepea Lucílio Alves.

Nesse sentido, para ele, não parecem muito efetivas ideias que circularam recentemente no governo para a retirada de tarifa de importação de soja, milho e arroz, com o objetivo de reduzir preços internos.

"Se os importadores est√£o batendo na porta, como nós vamos conseguir um produto mais barato l√° fora?", disse Alves, comentando uma reivindica√ß√£o da indústria de carnes, cujos custos da ra√ß√£o aumentaram.

Além do "choque de demanda" externa, Alves citou que a indústria de soja também registra, n√£o só no Brasil, boas margens de esmagamento, com as receitas de farelo e óleo aumentando, diante da fome da indústria de carnes e de biodiesel.

Café

No caso do café, a alta de pre√ßos do ar√°bica chega a mais de 45% em 12 meses, apesar de o Brasil estar encerrando o que o mercado considera ser uma safra recorde.

"É surpreendente esse cen√°rio... estamos finalizando colheita de muito boa produtividade, bom padr√£o, boa peneira..." disse o pesquisador do Cepea Renato Garcia Ribeiro.

O pre√ßo do café, entretanto, est√° distante do recorde em termos reais, registrado em maio de 1997, de mais de R$ 1.400 a saca (valor deflacionado), mas poucas vezes o mercado viu um valor nominal acima de R$ 600 na série do Cepea, como acontece desde a semana passada, com registro de recordes nominais.

Segundo ele, a sustenta√ß√£o dos pre√ßos em plena pandemia se d√°, além do c√Ęmbio, pelo fato de o Brasil estar ganhando mercado no exterior e também porque aparentemente o consumo n√£o foi t√£o afetado como se imaginava.

Cereais

No milho, outro produto que o Brasil est√° colhendo uma safra recorde, a cota√ß√£o subiu mais de 65% em 12 meses, para um novo recorde nominal acima de R$ 60 por saca, segundo dados do Cepea. E o dólar, além da demanda interna e exportadora, também ajuda na competitividade brasileira.

"Este ano, todos os recordes de pre√ßos vêm de choque de demanda, é um choque de demanda quando temos uma situa√ß√£o estrutural e política que est√° elevando a taxa de c√Ęmbio", resumiu Alves, do Cepea.

Para o especialista, o auxílio governamental do Brasil em fun√ß√£o da Covid-19 também tem favorecido a compra de arroz e trigo pela popula√ß√£o, prova disso é que esses produtos est√£o com maiores altas entre os da cesta b√°sica.

O arroz cotado pelo Cepea subiu mais de 100% em 12 meses, enquanto o trigo também registrou recorde mais cedo neste ano, embora agora este mercado tenha visto um arrefecimento, com a proximidade da colheita do Brasil.

"A partir do momento que as família ficam mais em casa, passam a demandar produtos de mais f√°cil preparo, caso do arroz", notou Alves, lembrando que os estoques desse produto b√°sico vinham baixos.

Outros produtos

Mesmo o algod√£o, um dos mercados mais afetados negativamente pela pandemia, vem se recuperando, na esteira do c√Ęmbio firme, e subiu 16% em agosto, segundo os dados do Cepea.

O a√ßúcar cristal, por sua vez, j√° subiu quase 40% considerando o valor de um ano atr√°s, apesar da expectativa de produ√ß√£o recorde no Brasil.

"Atribuo isso ao fato de estar exportando muito, a demanda interna n√£o caiu, as pessoas est√£o dentro de casa e est√£o consumindo a√ßúcar, até mais do que antes", disse a pesquisadora do Cepea Heloisa Lee Burnquist.

No boi gordo, com uma redu√ß√£o na oferta de gado devido ao ciclo pecu√°rio, queda na produ√ß√£o de carne, firme demanda externa e c√Ęmbio favor√°vel a exporta√ß√Ķes, a tendência é que as cota√ß√Ķes do animal sigam em nível recorde, exigindo maior desembolso dos frigoríficos, disseram analistas à Reuters na semana passada.

Isso também tem levado pre√ßo do bezerro para valores também recordes, enquanto o valor do suíno vivo também est√° entre os maiores da história nas principais pra√ßas, segundo o Cepea, em meio a fortes importa√ß√Ķes de carne pela China.

Na véspera, o Cepea ainda relatou pre√ßo recorde real do leite na média Brasil, com a alta atrelada à maior competi√ß√£o entre as indústrias de laticínios para garantir a compra de matéria-prima, em um momento de oferta limitada no campo e de recupera√ß√£o da demanda.

Veja vídeos do Globo Rural

Fonte: G1

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