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De onde vem o que eu como: do café ao feijão, quase metade da produção do campo passa por cooperativas

Por Redação em 02/07/2020 às 06:06:16


Organiza√ß√Ķes d√£o suporte para pequenos agricultores e pecuaristas ganharem mercado e muitas j√° se tornaram grandes líderes do agronegócio brasileiro. É o caso da Coamo, Coopersucar e Aurora. Casal de cooperados no campo, no Rio Grande do Sul

Cotrijal/Divulgação

O café com leite ao acordar, o arroz com feij√£o na hora do almo√ßo...por tr√°s desses eventos t√£o cotidianos é bem prov√°vel que exista o trabalho de uma cooperativa agropecu√°ria.

Isso porque quase metade do que vem do campo passa por produtores rurais associados a cooperativas. Hoje, elas produzem 75% do trigo do Brasil e lideram o cultivo do café (55%), milho (53%) e soja (52%), segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Boa parte do leite (46%) e do feij√£o (43%) também passa por elas.

De onde vem o que eu como: conheça a produção do trigo e do leite no Brasil

Pequenos agricultores e pecuaristas fundam essas organiza√ß√Ķes com o objetivo de ganhar maior poder de negocia√ß√£o na compra de matérias-primas, maquin√°rios e servi√ßos, em meio ao mercado cada vez mais competitivo do agronegócio.

Muitas delas j√° s√£o grandes líderes do setor e possuem faturamentos bilion√°rios, como é o caso da Coamo, Copersucar, Cotrijal e Cooxupé, por exemplo. Outras s√£o marcas conhecidas entre os brasileiros, como a Aurora, Batavo e Frimesa.

Ao todo, 1.613 cooperativas atuam no Brasil oferecendo suporte a 1 milh√£o de produtores, dos quais 71,2% est√£o ligados à agricultura familiar. Juntas, elas empregam 209,8 mil pessoas e faturam cerca de R$ 200 bilh√Ķes ao ano, de acordo com a Organiza√ß√£o das Cooperativas do Brasil (OCB).

Como funcionam as cooperativas no campo

G1

Pandemia

A crise econômica provocada pela pandemia do novo coronavírus também chegou nas cooperativas, principalmente nas menores.

O analista técnico da OCB, Jo√£o Prieto, conta que muitos produtores tiveram perdas relevantes, principalmente os que trabalham com produtos perecíveis, como frutas e hortali√ßas que precisam ser escoadas rapidamente.

Cooperados da agricultura familiar que participam de políticas do governo, como o Programa Nacional de Alimenta√ß√£o Escolar (Pnae), também est√£o tendo perdas. Logo que a pandemia come√ßou, em mar√ßo, os estados e municípios interromperam as compras com a paralisa√ß√£o das aulas.

Para tentar amenizar os impactos, o governo promulgou, no início de abril, a lei 13.987/2020 que prevê a distribui√ß√£o de alimentos para os alunos benefici√°rios do Pnae, em situa√ß√Ķes de emergência e calamidade pública.

Porém, nem todos os governos est√£o aderindo à medida. Uma reportagem do Globo Rural mostrou que, em Minas Gerais, por exemplo, apenas 5% dos municípios mantiveram suas compras. No estado, 17 mil produtores fazem parte da Pnae.

Produtores de MG que fornecem alimentos para merendas sentem impacto da pandemia

Outro desafio atual é a conten√ß√£o da dissemina√ß√£o de Covid-19 entre os trabalhadores de cooperativas que est√£o ligadas à cadeia de frigoríficos. "Essas cooperativas est√£o tendo que mudar toda a forma de trabalhar para poder garantir a seguran√ßa dos trabalhadores", diz Prieto. Em junho, o governo criou regras para a preven√ß√£o e controle da Covid em frigoríficos e laticínios.

Saída para permanecer no campo

Cooperada trabalha na produção agropecuária, no Rio Grande do Sul

Divulgação Fecoagro/ Iago Carvalho

O cooperativismo é uma das saídas para o pequeno produtor rural conseguir permanecer no campo, avalia o ex-ministro da Agricultura (2003-2006) e professor da FGV, Roberto Rodrigues.

Ele, que vem de uma família de cooperados, j√° viu muito produtor ser expulso da zona rural com a crescente concentra√ß√£o do setor nas m√£os de multinacionais.

"As grandes empresas têm recursos para incorporar tecnologias que reduzem custos, aumentam a produ√ß√£o e agregam valor ao produto final. J√° o pequeno agricultor n√£o tem dinheiro e nem tempo de fazer isso sozinho", afirma o ex-ministro.

Segundo IBGE, 63,8% dos cooperados recebem assistência técnica no campo, enquanto somente 20,2% do montante total de produtores do país tem acesso a esse servi√ßo.

"Sem comprar tecnologia, ele n√£o aumenta a produtividade. E sem aumentar produtividade, ele fica sem renda. É um círculo vicioso tr√°gico que precisa ser rompido, ou com política pública, ou com cooperativismo", enfatiza o professor.

Na comunidade de Car√°, em Goi√°s, por exemplo, o cooperativismo foi a saída para produtores locais aumentarem a produ√ß√£o de mandioca e polvilho e, assim, venderem mais, o que melhorou a renda de 51 famílias.

Cooperativismo transforma comunidade rural em Goi√°s

Crescer sem se afastar dos produtores

Um dos desafios das cooperativas hoje é ganhar mercado sem se distanciar dos produtores. "Quanto mais as cooperativas crescem, mais elas viram uma empresa e se afastam dos produtores", diz Ademir de Lucas, professor da Escola Superior de Agricultura "Luiz de Queiroz" da USP (ESALQ/USP).

Esse afastamento, segundo ele, acontece por diversas raz√Ķes. Uma delas é que algumas cooperativas, para aumentar o lucro, come√ßam a abrir novos negócios que n√£o têm uma rela√ß√£o direta com a atividade dos produtores, distanciando-se, dessa forma, dos interesses deles.

Representação

A representa√ß√£o nas assembleias também pode ficar mais difícil. "Tomar decis√Ķes em uma organiza√ß√£o com mais de 20 mil cooperados, por exemplo, é um desafio. Por isso, em algumas delas, os associados elegem delegados locais, que passam a represent√°-los nas assembleias", diz Prieto.

"Quando as cooperativas s√£o pequenas, o produtor tem mais poder de decis√£o. Por outro lado, elas têm menos poder de press√£o política e econômica", afirma Ademir.

Manter o engajamento

Cooperados trabalham juntos no campo

Cotrijal/Divulgação

Outro desafio é manter o produtor engajado na cooperativa, pagando mais pela mercadoria dele do que outras empresas.

"N√£o tem nenhuma regra que impe√ßa o cooperado de vender para outros negócios. Mas, se ele faz isso, fica mal visto dentro da organiza√ß√£o e participa menos da distribui√ß√£o das sobras, pois quanto mais você compra e vende dentro da cooperativa, maior é a sua parcela no lucro", explica Silvio Castro, professor da Unicesumar.

Muitas cooperativas têm dificuldade de pagar mais ao produtor, porque elas precisam, ao mesmo tempo, vender as mercadorias por um pre√ßo competitivo, j√° incluindo os seus custos.

Entre o socialismo e o capitalismo

A filosofia cooperativista surgiu na primeira metade do século 19, na Europa, como uma resposta à concentra√ß√£o de renda e dos meios de produ√ß√£o, durante a primeira Revolu√ß√£o Industrial.

No período, novas tecnologias, como a m√°quina a vapor e o tear mec√Ęnico, substituíram o trabalho de pequenos artes√£os pela produ√ß√£o industrial. Com isso, quem fazia roupa em casa, por exemplo, perdeu trabalho para a crescente indústria têxtil.

Algod√£o é o 'boi vegetal' que vira desde óleo de cozinha até dinheiro

A primeira cooperativa da história foi fundada em 1844, na cidade de Rochdale-Manchester, na Inglaterra, por 28 trabalhadores (27 homens e uma mulher) que se uniram para montar o seu próprio armazém.

"Nos anos de 1840, o cooperativismo era visto como a terceira via para o desenvolvimento: entre o socialismo e o capitalismo", conta Rodrigues.

O modelo foi trazido para o Brasil pelos imigrantes europeus, principalmente alem√£es e italianos, o que explica a concentra√ß√£o de cooperados nas regi√Ķes Sul (55,1%) e Sudeste (34,1%).

A primeira cooperativa agropecu√°ria do país foi fundada no Paran√°, em 1847. Mas somente a partir de 1907 que o setor ganhou impulso.

Apesar disso, o cooperativismo brasileiro só foi organizado por um regime jurídico em 1971, com a promulga√ß√£o da lei 5.764 que instituiu regras para o setor.

Atualmente, o cooperativismo é visto como uma filosofia de inser√ß√£o econômica e social, segundo Rodrigues, da FGV. Econômica, porque, ao se unirem, os produtores têm mais for√ßa para sobreviver no campo e gerar renda. E social, porque ao terem recursos, acessam direitos fundamentais, como moradia, alimenta√ß√£o, educa√ß√£o e saúde.

Partilhando os ganhos

No final de todo o ano, geralmente, os cooperados dividem os ganhos das vendas, depois de descontar todos os custos. O que é o "lucro" de uma empresa normal, é chamado de "sobra" pelas cooperativas.

Algumas delas chegam a gerar uma "bolada" para os agricultores, maior do que muito prêmio da Mega-sena. Em dezembro de 2019, agricultores de uma cooperativa de Campo Mour√£o (PR), por exemplo, dividiram R$ 100 milh√Ķes de sobras.

Cooperativa divide R$ 100 milh√Ķes de lucro no Paran√°

O que é feito com o dinheiro da "sobra" tem que ser decidido em assembleia. O recurso também pode ser direcionado para investimento.

A assembleia é, inclusive, o órg√£o m√°ximo de todas as decis√Ķes de uma cooperativa. Ela precisa acontecer até mesmo para fundar a organiza√ß√£o, ocasi√£o na qual os cooperados formulam o estatuto, decidem sua sede e as cotas de contribui√ß√£o de cada membro. As cotas formam o capital social da cooperativa.

Sempre quando um agricultor ou pecuarista entrega o seu produto para a cooperativa, a organização precisa remunerá-lo imediatamente. Isso se chama "ato cooperativo". Depois dessa etapa, os funcionários da associação ficam responsáveis pelo armazenamento, comercialização e/ou industrialização dos produtos.

As cooperativas podem ser singulares ou centrais. Elas s√£o "singulares" quando formadas por apenas uma cooperativa. E s√£o "centrais" quando três ou mais cooperativas se juntam para atuar em algum ramo.

Elas podem exercer uma ou mais das seguintes atividades:

Compra de insumos: como sementes, fertilizantes, m√°quinas e equipamentos

Organização da armazenagem, comercialização e processamento dos produtos

Contrata√ß√£o de assistência técnica: veterin√°rios e engenheiros agrônomos, por exemplo

Constru√ß√£o de uma indústria própria

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Fonte: G1

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