Ameaçado de extinção, peixe pintado estreia em programa de reprodução

Por Redação em 20/05/2024 às 07:19:33

Um caminhão transportando três caixas de peixes com 2 mil quilos cada estacionou de ré na beira do rio Paranapanema, em Salto Grande, no interior paulista, em março. Em seguida, funcionários que trabalhavam no local acoplaram rampas para que fosse possível soltar no rio milhares de filhotes de peixes nativos.

Essa "dança" dos peixinhos na passagem pelo tubo até o rio, que se repete há muitos anos no Paranapanema e também no rio Paraná, marca o encerramento de um processo que começa meses antes no Centro de Piscicultura da antiga Usina Cesp, em Salto Grande (SP), que hoje é uma das 17 hidrelétricas da CTG Brasil, a operação nacional da China Three Gorges Corporation.

Como parte de suas ações de compensação pelo impacto ambiental da construção das barragens, a empresa de energia de capital chinês precisa soltar nos reservatórios de suas usinas, por ano, 3,6 milhões de filhotes de peixes nativos de água doce. A contrapartida é uma exigência do licenciamento ambiental federal, conduzido pelo Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama).

Neste ano, a soltura, também conhecida como peixamento ou estocagem, incluiu, pela primeira vez, o pintado (Pseudoplatystoma corruscans), que está na lista oficial das espécies brasileiras ameaçadas de extinção, na categoria vulnerável, elaborada pelo Ministério do Meio Ambiente. De forte apelo comercial e esportivo, o pintado, que deve seu nome às diversas pintas pretas cilíndricas em seu corpo, pode alcançar até 1,70 metro de comprimento, o que faz dele um dos dez gigantes dos rios brasileiros.

Robusto e selvagem, ele tem pele acinzentada no dorso, branca no ventre e barbatanas de tom avermelhado. O peixe tem hábitos noturnos, é carnívoro, alimenta-se de outras espécies, tem mandíbulas fortes, que impedem a fuga da presa, e sua boca e estômago são elásticos, característica que permite a ele capturar peixes maiores. Com ciclo de vida de até 18 anos, a espécie tem a poluição dos rios e a pesca predatória como suas principais ameaças.

O biólogo Norberto Castro Vianna, especialista de meio ambiente da CTG Brasil, diz que a empresa investe R$ 3,5 milhões por ano no processo, que inclui captura, adaptação e reprodução em cativeiro, criação em tanques e peixamento. Entre a captura na natureza de 25 casais viáveis até a soltura dos 50 mil pintadinhos de 8cm a 10cm, o trabalho de pesquisa e trabalho estendeu-se por mais de dois anos.

Vianna, que atua nessa área há 37 anos e supervisiona todos os processos, conta que a empresa já fazia reprodução de outras sete espécies (pacu, piapara, curimba, dourado, lambari, piracanjuba e piau de três pintas). Mas, segundo ele, o desafio com o pintado foi maior porque foi preciso adaptar o bicho selvagem ao cativeiro, desenvolver uma técnica de reprodução e evitar o canibalismo.

"Os peixes de piracema como o pintado precisam nadar rio acima para desovar. É nesse esforço físico que machos e fêmeas adultos preparam seus órgãos reprodutivos para a desova na água doce, onde ocorre a fecundação. Os ovos fecundados descem rolando pelo rio, quando então ocorre a eclosão das larvas, que se tornam alevinos e entram nos braços dos rios para se alimentar e fugir de predadores", explica Vianna.

Ele diz que, no caso do pintado, foi preciso fornecer peixes vivos para alimentar a espécie antes de adaptá-la a comer também ração, descobrir a dosagem de hormônio necessária para a desova, o intervalo entre as duas doses e a hora certa de fazer a massagem na barriga para a extrusão de óvulos e sêmen.

Descobrir como alimentar as larvas foi outro desafio. Por dia, no incubatório, as larvas exigiram uma mistura de 600 gemas de ovos frescos de galinha misturados com leite em pó e ração. Além da alimentação de hora em hora, os funcionários precisam manter a sanidade da água durante o crescimento das larvas.

Outro cuidado fundamental no processo do pintado, conta Vianna, foi reproduzir somente peixes puros que têm a genética adequada para os dois rios, e não a espécie híbrida com cachara, por exemplo, comum em outras bacias hidrográficas e também em criatórios comerciais de pintado. Também é preciso evitar a cosangunidade.

Todos esses cuidados na reprodução também entram nas recomendações de Agostinho Catella, pesquisador de recursos pesqueiros da Embrapa Pantanal que integrou a equipe que fez um plano de recuperação do pintado em 2022. Segundo ele, a introdução de espécies nativas criadas em cativeiro pode causar impactos ambientais, degeneração genética, desequilíbrios populacionais e introdução de patógenos.

O especialista conta que, no Pantanal, há populações vigorosas de pintado porque a maioria das principais rotas migratórias da espécie para a reprodução está livre, situação que difere da dos rios da região Sudeste, onde a construção de muitas usinas bloqueou os trajetos.

Além do trabalho com o pintado, o Centro de Piscicultura da CTG Brasil dedica-se agora à reprodução do jaú e da jurupoca, peixes igualmente de grande porte e de hábitos migratórios. "Começamos a trabalhar com o jaú em 2021. Os machos já se adaptaram bem e soltam o sêmen na bacia, mas as fêmeas ainda não se reproduzem", afirma biólogo Norberto Vianna

A empresa concentra o trabalho de reprodução das espécies em sua estrutura em Salto Grande e depois envia os peixes a outros reservatórios de suas usinas. Segundo a empresa, desde 2016, o projeto de reprodução já levou à soltura de cerca de 25 milhões de peixes, de diferentes espécies, nas bacias dos rios Paraná e Paranapanema.

A companhia terceirizou o programa de reprodução para a Aquacultura Brasil, empresa de Ourinhos (SP) que existe há mais de 20 anos e que tem experiência em reprodução, produção e comércio de peixes de água doce. A empresa também presta serviço para outras usinas hidrelétricas e para a Vale em serviços de repovoamento de rios e transposição manual de peixes.

Dez funcionários da Aquacultura Brasil trabalham em Salto Grande diariamente. Quando não estão cuidando do manejo reprodutivo, eles fazem a separação dos reprodutores e a manutenção do laboratório e dos tanques.

A exigência do Ibama, de soltura de 3,6 milhões de peixes por ano, é "aleatória", segundo o especialista em meio ambiente da CTG. Para identificar a real necessidade de repovoamento de cada bacia, ele conta, a empresa fez uma pesquisa em parceria com a Universidade Estadual de Londrina (UEL).

"Durante quatro anos, capturamos larvas e ovos na natureza para análise genética das espécies presentes nas diversas bacias hidrográficas. Desenvolvemos um protocolo científico que foi testado em projeto piloto em mais quatro anos no reservatório de Rosana [município na divisa entre São Paulo e Mato Grosso do Sul], identificamos mais de 40 espécies exóticas como o tucunaré e a corvina e conseguimos responder quais espécies estão presentes no rio e o volume de cada uma", diz Vianna.

O próximo passo é fazer tratativas com o Ibama para dimensionar, com base técnica e científica, o ritmo de soltura controlada que permita recompor a fauna sem causar outro desequilíbrio ambiental. A Diretoria de Licenciamento do Ibama confirmou que deu autorização para uso do protocolo desenvolvido inicialmente para a Usina Hidrelétrica de Rosana. Segundo o órgão, como os resultados preliminares desse protocolo têm sido positivos, já se considera aplica-lo em outras usinas.

Para definir quantos peixes serão necessários para os projetos de repovoação de cada usina, os técnicos consideram, por exemplo, quais espécies mais sofreram com os impactos da implantação da hidrelétrica, entre outros fatores. O número não é o mesmo todos os anos. Além disso, há casos em que, depois de processos nos tribunais, é o judiciário que define a quantidade, avaliando dados como eventual mortandade de peixes ou ações movidas por associações e comunidades de pescadores.

Os responsáveis pela soltura dos peixes precisam comunicar o órgão ambiental sobre a ação com antecedência – algumas vezes, as autoridades acompanham a operação no local. As usinas devem, além disso, apresentar documentos de transporte que incluam o número de alevinos e fotos e relatórios anuais.

7 passos para a reprodução do pintado em cativeiro

  1. Peixe que pode atingir até 1,70 metro e pesar 100 kg é capturado com vara ou rede nos rios.7 passos da reprodução do pintado em cativeiro
  2. Na captura é colocado o chip de rastreamento no peixe. Na sequênia, é colhido DNA para o exame que vai identificar a pureza da espécie e se é adequada para os rios Paraná e Paranapanema.
  3. Avesso ao cativeiro, o pintado fica em adaptação nos tanques por cerca de dois anos. Nesse período é alimentado com pequenos peixes vivos e ração até que comece a consumir apenas ração.
  4. Após a adaptação, peixe é anestesiado com óleo de cravo adicionado na água e levado para uma maca, onde fêmeas e machos recebem uma indução hormonal por injeção com hipófise (glândula) de salmão para que chegue ao estágio exato de maturação dos óvulos.
  5. No momento certo, pesquisadores e técnicos massageiam a barriga de machos e fêmeas para a extrusão, ou seja a expulsão de óvulos e sêmen, que vão para uma bacia, onde ocorre a fecundação.
  6. Fecundados, os ovos vão para uma incubadora, em ambiente escuro, onde ficam sendo rolados por cerca de 18 horas, com uma temperatura média de 26 graus, até o nascimento das larvas.
  7. Após atingirem de 1 cm a 2 cm, as larvas vão para um dos 34 tanques de criação da Unidade de Piscicultura da CTG Brasil, em Salto Grande, onde ficam cerca de 30 dias sendo alimentados com fitoplâncton e ração própria para carnívoros e são monitorados 24h por dia, pois são peixes de hábito alimentar noturno. A cada 2 dias é feita a classificação a fim de retirar os maiores para evitar o canibalismo. Vão para a soltura quando atingem de 8 cm a 10 cm.

Fonte: Globo Rural

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