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Gente do campo: mulher pecuarista debate sucessão familiar feminina e violência doméstica no campo

Por Redação em 30/11/2021 às 06:29:31

A advogada Juliane Silvestri Beltrame decidiu assumir a propriedade de seu pai após a morte dele, em 2010, com 30 anos de idade.

Juliane Silvestri Beltrame n√£o pensava em assumir a fazenda de seu pai até 2010, quando ele morreu. Hoje, ela discute a import√Ęncia de planejar antes esse processo e, como advogada, leva o tema da viol√™ncia contra a mulher para o munic√≠pio de Campo Er√™, em Santa Catarina.


A advogada Juliane Silvestri Beltrame nunca havia pensado em ser pecuarista como o seu pai, Jovino Silvestri, até ele morrer, em 2010.

A partir daquele momento, com 30 anos e tomada por um "sentimento de gratidão", ela, que nem sabia subir em um cavalo, assumiu a fazenda de 230 hectares de sua família, que fica no município de Campo Erê, em Santa Catarina.

"Quando meu pai faleceu, meu irmão tinha 10 anos e minha irmã ainda estava na faculdade... decidi assumir...tomei conhecimento da área, conversei com pessoas da cidade para ter ideias, fiz cursos. Tudo isso com 3 meses de gestação. Na minha primeira venda de gado, eu já estava com 8 meses de gravidez", conta.

A sucess√£o inesperada a encorajou a debater o assunto com outras moradoras da cidade.

Apesar de avan√ßos recentes, o processo de sucess√£o familiar de mulheres no campo ainda n√£o é bem estruturado e pode acontecer de forma repentina, quando o marido ou o pai morrem, por exemplo, diz Juliane.

J√° a sua experi√™ncia como advogada de fam√≠lia est√° levantando outro assunto delicado: a viol√™ncia doméstica contra as mulheres no meio rural.

O tema ainda é invisibilizado por causa de particularidades do campo, como a dist√Ęncia geogr√°fica das fazendas, que dificulta acesso a servi√ßos e comunica√ß√£o.


Juliane se tornou ela se tornou a primeira mulher a assumir a presid√™ncia do Sindicato Rural de Campo Er√™-SC em 2020. — Foto: Arquivo pessoal
Juliane se tornou ela se tornou a primeira mulher a assumir a presidência do Sindicato Rural de Campo Erê-SC em 2020.


Esses temas t√™m sido abordados por Juliane de maneira informal e por meio do Sindicato Rural de Campo Er√™-SC. No ano passado, ela se tornou a primeira mulher a assumir a presid√™ncia da entidade e j√° organizou um encontro de mulheres do munic√≠pio para o próximo dia 4 de dezembro.

Ela conta que, no in√≠cio, sofreu preconceito de outros pecuaristas do sindicato por ser mulher. "N√£o é que nós somos mal recebidas. É que, primeiro, a gente precisa comprovar a nossa capacidade para, depois, ganhar credibilidade", diz.

"No come√ßo, todo mundo ficou um pouco apavorado, mas as pessoas, com o tempo, v√£o se acostumando e pensando 'ah, ela também consegue'", acrescenta.

Em sua propriedade, a advogada trabalha com a pecu√°ria de corte, que é voltada para a produ√ß√£o de carne. Ela atua, mais especificamente, na cria√ß√£o de bezerros e novilhas que s√£o vendidos para outros produtores fazerem a engorda.

A produ√ß√£o é alternada ainda com o plantio de soja, milho e trigo, que é feito por um agricultor parceiro, em um sistema chamado Integra√ß√£o Lavoura-Pecu√°ria, que, por aumentar a efici√™ncia do uso de recursos naturais, gera menos impacto ao meio ambiente.

Sucess√£o repentina


Juliane Silvestri Beltrame conta que se apaixonou pelo campo e pelos animais. — Foto: Arquivo pessoal
Juliane Silvestri Beltrame conta que se apaixonou pelo campo e pelos animais.


"Acho que, se meu pai voltasse, ele diria 'eu n√£o acredito que voc√™ deu continuidade'", conta Juliane que, quando crian√ßa, ia para a fazenda da fam√≠lia apenas para brincar e nunca pensou seriamente em seguir os negócios.

Ela diz que nunca foi muito estimulada. "Acho que a maioria dos pais antigos era assim, tem um patriarcado que a gente vive ainda, que a mulher é mais sens√≠vel, n√£o aguenta os trabalhos do campo. Mas hoje isso j√° est√° mudando".

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Por outro lado, a partida abrupta de seu pai, que sofreu um ataque cardíaco na fazenda, a fez repensar sua relação com o campo.

"Eu decidi seguir na fazenda por gratidão ao meu pai, por amor...E, no fim, acabei me apaixonando muito pelo campo, pelos animais. Se eu tivesse tido essa sensação lá atrás, acho que teria feito veterinária", diz.

Ela conta também que, nesse processo, teve muito apoio de sua m√£e e de seus dois irm√£os.

No local onde seu pai morreu, Juliane plantou até flores para homenage√°-lo.


Juliane plantou uma flor no local em que seu pai morreu. — Foto: Arquivo pessoalJuliane plantou uma flor no local em que seu pai morreu.


Desafio e superação

No início, a advogada teve muita dificuldade para entender todos os processos da fazenda e chegou a duvidar de si mesma durante muito tempo.

"Quando a gente fala da sucess√£o familiar, eu senti isso na pele isso. Passei v√°rias noites pensando no que eu ia fazer: 'ser√° que n√£o vou colocar tudo a perder? Ser√° que eu sei mexer com esses bichos?'", diz.

Mas a empreitada deu certo. Juliane estudou, contratou assist√™ncia técnica e financiamento e, a partir dessas iniciativas, melhorou a produ√ß√£o, a partir, por exemplo, da troca de animais mais velhos por mais novos e da mudan√ßa da alimenta√ß√£o das vacas, que recebem, hoje, uma ra√ß√£o mais forte para suportarem o inverno.


 Juliane melhorou a produ√ß√£o a partir, por exemplo, da troca de animais mais velhos por mais novos e mudan√ßa da alimenta√ß√£o dos animais. — Foto: Arquivo pessoal
Juliane melhorou a produção a partir, por exemplo, da troca de animais mais velhos por mais novos e mudança da alimentação dos animais.


Debate com as mulheres

A viv√™ncia de Juliane faz com que, hoje, ela incentive outras mulheres a se inteirarem dos negócios dos pais e maridos o quanto antes.

"Eu sempre digo para as mulheres: 'vão acompanhando o que os maridos estão fazendo, vão na cidade com eles, na prefeitura, nas empresas em que eles compram os produtos, vejam o preço do milho, a arroba do boi'", diz.

"A gente sabe que, geralmente, o marido morre antes que a esposa. Ent√£o, uma hora ou outra, ela vai ter que gerenciar se n√£o tiver filhos que cuidem. Se n√£o é pela morte do marido, é por uma sucess√£o familiar porque o pai falece, como aconteceu comigo", acrescenta.

Viol√™ncia doméstica no campo


 Juliane tem usado a sua experi√™ncia como advogada para debater viol√™ncia doméstica no campo. — Foto: Arquivo pessoal Juliane tem usado a sua experi√™ncia como advogada para debater viol√™ncia doméstica no campo.


Outro assunto espinhoso que ela tem abordado em Campo Er√™ é a viol√™ncia doméstica contra as mulheres no meio rural.

"No campo, as mulheres têm dificuldade para chamar ajuda. As propriedades ficam longe uma da outra, muitas não sabem como pedir ou têm vergonha. Então fica ali velado, dentro da família", diz Juliane.

Por ser advogada, ela acaba orientando ou atendendo muitos casos de viol√™ncia de diferentes tipos, como f√≠sica, psicológica e patrimonial.

"Muitas apanham do marido, mas ficam caladas pensando como sustentarão os filhos em caso de separação. Tem aquelas que ajudam na fazenda, tirando leite da vaca, fazendo muitos trabalhos, mas, quando chega o final do mês, o marido pega todo aquele dinheiro pra ele e faz o que quer, a mulher nem vê", relata.

Para orientar melhor as moradoras de Campo Er√™, Juliane convidou uma policial civil e uma assistente social para o encontro mulheres do munic√≠pio que vai acontecer no próximo dia 4 de dezembro.

Ela lembra ainda que as mulheres que sofrem violência podem pedir ajuda com um sinal criado pela Campanha Sinal Vermelho, do Conselho Nacional de Justiça (CNJ).

Por meio de um "X" escrito na palma da m√£o, ou em um peda√ßo de papel, as v√≠timas podem, de maneira discreta, sinalizar a situa√ß√£o de vulnerabilidade a funcion√°rios de cartórios, prefeituras, órg√£os do Judici√°rio e ag√™ncias do Banco do Brasil (saiba mais aqui).


Material da campanha Sinal Vermelho — Foto: Divulga√ß√£oMaterial da campanha Sinal Vermelho




Fonte: G1

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