AL- Vacina que volta

De onde vem o que eu como: batata, que já foi associada a bruxaria, hoje já pode ser 'plantada no ar'

Por Redação em 18/10/2021 às 10:13:37

Batata, que já foi associada a bruxaria, hoje já pode ser 'plantada no ar'

É o quarto alimento mais consumido no mundo. Confira curiosidades desse cultivo.


Quarto alimento mais consumido no mundo, depois do leite, trigo e arroz, a batata gerou muito rebuliço ao ser associada à bruxaria quando desembarcou na Europa, no século 16, trazida da América do Sul, por colonizadores.

A Igreja escocesa, por exemplo, chegou a proibir o seu cultivo por não estar mencionada na Bíblia, sendo ainda acusada de propagar doenças como tuberculose, raquitismo, sífilis e até mesmo a luxúria, conta a crítica gastronômica Danusia Barbara, em seu livro "Ao Vencedor, as Batatas!".

Entretanto, o "maior crime" da batata era ser semelhante a uma planta da sua família (Solanaceae) chamada belladona. Esta contém uma substância que era usada na época para fazer unguentos, pomadas medicinais, que, acreditava-se, davam a bruxas o poder de voar.

Centenas de anos depois, a história chega a ser cômica. Ninguém voa com batata, mas, quem diria, a ciência descobriu, no século 20, que o legume pode ser "plantado no ar", em uma técnica chamada de aeroponia.


Cultivo aeropônico da batata na CBA Sementes. — Foto: CBA Sementes/Divulgação
Cultivo aeropônico da batata na CBA Sementes.


Neste método, as plantas ficam suspensas no ar em estufas, apoiadas pelo colo das raízes. O modelo é usado para produzir batatas-sementes, pequeninas, que, depois, são plantadas em uma lavoura tradicional, dando o legume que chega até a nossa mesa.

Dentre os seus benefícios está a economia de água e mais batata por planta (saiba mais sobre essa técnica e outros fatos históricos da batata abaixo, nesta reportagem).

No Brasil, o mercado de batatas movimenta R$ 9,3 bilhões por ano, com um terço da produção vindo de Minas Gerais. No mundo, o país ocupa o 21º lugar dentre os produtores. Na liderança, estão China e Índia, diz Natalino Shimoyama, presidente da Associação Brasileira da Batata (ABBA).


Batata não é inglesa! O tubérculo é nativo da América do Sul, da Cordilheira dos Andes. — Foto: Arte/g1
Batata não é inglesa! O tubérculo é nativo da América do Sul, da Cordilheira dos Andes.


Que 'bruxaria' é essa?

Na técnica de "plantar batatas no ar", mudas são colocadas em estufas e as plantas crescem a partir de uma nebulização (transformação da água em vapor) das raízes.

Na água, são colocados os nutrientes necessários para a planta crescer saudável: nitrogênio, fósforo, potássio, cálcio e magnésio, por exemplo. As raízes ficam em caixa escura, simulando o ambiente debaixo da terra.

Em 2018, o Jornal Nacional mostrou como funciona esse sistema na CBA Sementes, em Divinolândia (SP), a primeira empresa a produzir batata-semente em escala comercial, no Brasil. Veja no vídeo abaixo:

O processo de produzir batata-semente é importante porque não se planta o tubérculo direto na terra. É preciso, primeiro, produzir essas batatas menores, seja em vasos, em aeroponia ou hidroponia, detalha Thiago Factor, pesquisador do Instituto Agronômico de Campinas (IAC).

Segundo ele, que foi um dos pesquisadores que trouxe a técnica para o Brasil, a aeroponia é, atualmente, o sistema com maior produtividade em relação aos sistemas tradicionais.

Enquanto no "plantio no ar" são produzidos de 40 a 60 tubérculos por planta, no sistema convencional, em vasos, são geradas de 5 a 10 batatas-sementes.

E as plantas crescem mais rápido: em 7 dias, a batata já está tuberizando na aeroponia, ao passo que, na terra, ela começa a se desenvolver em 40 dias.

"Isso acontece porque você otimiza a passagem dos nutrientes para a raiz. A água com os nutrientes vai direto para a raiz. Imagina se essa raiz estivesse no solo, com partícula de torrão, pedra, paus, impedindo o caminhamento livre dela", acrescenta Factor.


O sistema também gera uma economia de mais de 90% em relação aos modelos tradicionais. — Foto: CBA Sementes/Divulgação
O sistema também gera uma economia de mais de 90% em relação aos modelos tradicionais.


Menos água e mais segura

O sistema também gera uma economia de mais de 90% em relação aos modelos tradicionais. " A aeroponia é um sistema fechado: à medida que a planta absorve os nutrientes, a água volta para o tanque. Você não perde ela por evaporação ou percolação", diz Factor.

A técnica garante ainda uma maior segurança fitossanitária. "Dentro de um ambiente fechado e telado, longe do solo, a incidência de pragas e doenças que podem danificar a semente é muito menor", diz.

Dá para consumir essa batata-semente?

A batata-semente pode ser consumida, pois ela nada mais é do que uma batata em tamanho menor.

É possível também produzir tubérculos maiores na aeroponia, mas, segundo Factor, o sistema não compensa para este tipo de produção por ter um custo mais alto do que o método convencional, devido aos equipamentos necessários.


 batata-semente pode ser consumida, pois ela nada mais é do que uma batata em tamanho menor. — Foto: CBA Sementes/Divulgação
batata-semente pode ser consumida, pois ela nada mais é do que uma batata em tamanho menor.


Reduzir custo de importação

Por outro lado, a aeroponia tem se mostrado vantajosa para os produtores que compram as sementes, não somente pela produtividade mencionada, como também pelo fato de reduzirem dependência da importação.

Atualmente, o Brasil compra cerca de 80% das sementes de fora, principalmente da Europa. E, com o dólar alto, esse custo tem pesado no bolso do produtor, pois o insumo importado custa o dobro.

O CEO da CBA Sementes, Lucas Pladevall Moreira, diz, inclusive, que a sua empresa participa de um projeto para zerar a importação de batata-semente de duas grandes indústrias que estão no Brasil. Uma delas é a PepsiCo, uma das principais compradoras da CBA.

"Com isso, vamos permitir que o Brasil consiga produzir batata-semente de qualidade, a um custo menor", afirma.

Veja 6 curiosidades sobre a batata


Batata não é inglesa! — Foto: Divulgação
Batata não é inglesa!


Batata não é inglesa! Ela é nativa da América do Sul, da Cordilheira dos Andes, onde é cultivada há mais de 8 mil anos anos;

O tubérculo só chegou na Europa por volta de 1570, segundo a Empresa de Pesquisa Agropecuária (Embrapa);

No Brasil, ela recebeu o apelido de inglesa porque engenheiros britânicos que vieram participar da construção de ferrovias no país, a partir do século 19, exigiam batatas em suas refeições;

Depois de anos de má fama na Europa, o status da batata começou a mudar no reinado de Luís 16 (1754-1793), na França. Isso porque o farmacêutico Antoine Parmentier mostrou a segurança e os nutrientes do alimento, em estudos feitos durante a sua prisão na Prússia, na Guerra dos Sete Anos;

Parmentier acreditava que a batata tinha potencial de combater a fome e, por isso, convenceu o rei a bolar uma estratégia para convencer a população a plantar: em um terreno em Paris, mandou semear o tubérculo, com a vigilância de soldados durante o dia, sob o pretexto de que o alimento seria somente para a nobreza. À noite, a guarda deixava o local e as pessoas começaram a furtar o alimento;

O cultivo da batata como estratégia para combater a fome está presente atualmente em políticas públicas da China e Índia, por exemplo. Isso porque, em um contexto de disputa por terras e água, o tubérculo é ideal para plantar em pequenos espaços devido à sua versatilidade. "Dá pra comer batata mais vezes ao dias, com diferentes combinações. Diferente de alho, amendoim, cebola, etc", diz o presidente da Associação Brasileira da Batata (ABBA), Natalino Shimoyama.


Fonte: G1

Comunicar erro
AL- Fake News - Vacinas

Comentários