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Com pandemia, indústria perde ainda mais participação no PIB e agronegócio ganha protagonismo

Por Redação em 21/07/2021 às 07:56:06

Peso da indústria vem encolhendo continuamente nos últimos anos e fatia do setor manufatureiro no PIB atingiu 11,3% no 1¬ļ trimestre – menor percentual desde 1947. F√°brica da Audaces em Palho√ßa (SC), que produz m√°quinas inteligentes de corte e softwares para o segmento têxtil. Empresa é exemplo raro de indústria brasileira 4.0 que tem conseguido crescer mesmo durante a pandemia

Audaces/Divulgação

O processo de desindustrializa√ß√£o da economia brasileira se acentuou com a pandemia do novo coronavírus. Levantamento do Instituto Brasileiro de Economia da Funda√ß√£o Getulio Vargas (Ibre/FGV) mostra que a participa√ß√£o do setor manufatureiro no PIB (Produto Interno Bruto) atingiu novas mínimas históricas e que a indústria continua perdendo protagonismo na economia brasileira.

O peso da indústria de transforma√ß√£o (que reúne todo o setor manufatureiro) caiu de 11,79% do PIB em 2019 para 11,30% em 2020, se mantendo nesse patamar no 1¬ļ trimestre de 2021. Trata-se do menor percentual desde 1947, ano em que se inicia a série histórica das contas nacionais calculadas pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

Após 3 quedas seguidas, produ√ß√£o industrial cresce 1,4% em maio

Na contram√£o do PIB, indústria de transforma√ß√£o teve retra√ß√£o no 1¬ļ trimestre

Agropecu√°ria cresceu 5,2% no 1¬ļ trimestre e foi destaque no PIB

Estados atrelados ao agronegócio devem liderar alta do PIB em 2021

A série mostra que a indústria vem sofrendo um retrocesso quase contínuo desde o início dos anos 2000, evidenciando tanto as dificuldades de competitividade como também de recupera√ß√£o das perdas provocadas pela crise da Covid-19. No melhor momento, em 1985, o peso do setor manufatureiro chegou a 24,5% do PIB. Ou seja, de l√° para c√° a participa√ß√£o encolheu para menos da metade de sua m√°xima histórica. Veja no gr√°fico abaixo:

Indústria de transforma√ß√£o perde participa√ß√£o no PIB

Economia G1

J√° a participa√ß√£o da indústria geral (que inclui também extrativa, constru√ß√£o civil e atividades de energia e saneamento) no PIB caiu de 21,4% em 2019 para 20,4% em 2020 e nos 3 primeiros meses deste ano – também nova mínima.

O levantamento, elaborada pela economista Silvia Matos, mostra a evolu√ß√£o da participa√ß√£o dos diferentes setores no PIB brasileiro, excluídos os impostos, utilizando a metodologia de pre√ßos correntes corrigidos.

Agro ganha protagonismo com crise da Covid-19

A perda de relev√Ęncia da indústria no PIB é um fenômeno mundial e estrutural. Nas últimas décadas, em diversos países do mundo, a diminui√ß√£o do peso do setor manufatureiro tem sido acompanhada por um avan√ßo de setores de servi√ßos destinados a atender uma demanda cada vez maior por atividades como servi√ßos de tecnologia e informa√ß√£o, servi√ßos pessoais, de saúde e educa√ß√£o.

No Brasil, no entanto, o processo de desindustrializa√ß√£o tem sido h√° tempos classificado como "prematuro", por se dar numa velocidade mais r√°pida do que a verificada em outras economias e por ocorrer antes de o país ter atingido um maior nível de desenvolvimento e de renda per capita. Os economistas destacam também que os servi√ßos que mais crescem no país costumam empregar profissionais com pouca especializa√ß√£o e baixos sal√°rios.

"O que tem de novidade na pandemia é que o agronegócio vem ganhando protagonismo como a gente nunca viu. Tudo caiu, só o agro se beneficiou, ficando praticamente imune à crise na maioria dos países. O mundo continuou demandando muito alimentos, teve um boom de commodities e é um setor que continua inovando muito, com ado√ß√£o de tecnologias", afirma a pesquisadora do Ibre/FGV.

O levantamento mostra que o setor de servi√ßos – o mais afetado pelas medidas de restri√ß√£o para conter a propaga√ß√£o do coronavírus – viu seu peso no PIB cair de 73,5% em 2019 para 71,7% no 1¬ļ trimestre de 2021. J√° a participa√ß√£o do agronegócio saltou no mesmo período de 5,1% para 7,9% – maior percentual trimestral desde 1996. Veja no gr√°fico abaixo:

Agropecuária e serviços ganham participação

Economia G1

Na avalia√ß√£o da pesquisadora do Ibre, o agronegócio tende a continuar sendo favorecido pela forte e crescente demanda mundial por alimentos como soja, milho e carnes. Mas, com o avan√ßo da vacina√ß√£o e o gradual fim das medidas de restri√ß√£o, a tendência é que o setor de servi√ßos volte a recuperar rapidamente uma boa parte da fatia perdida no PIB.

"O setor de servi√ßos foi o que mais sofreu. O país parou de consumir servi√ßos. Ent√£o, acabando a pandemia, o natural é que o setor volte a crescer", afirma Matos.

J√° para a indústria os desafios s√£o maiores, uma vez que n√£o dependem apenas da reabertura total da economia e da recupera√ß√£o da demanda interna, mas também do enfrentamento de quest√Ķes estruturais que se arrastam h√° anos e de problemas novos como falta de insumos, infla√ß√£o elevada e aumento do custo do crédito em meio à eleva√ß√£o da taxa b√°sica de juros.

Após 3 quedas seguidas, produ√ß√£o industrial cresce 1,4% em maio, mas n√£o elimina perdas dos meses anteriores.

Desafios da indústria para recuperar perdas da pandemia

Matos lembra que a continuidade do processo de desindustrializa√ß√£o durante a pandemia se deu mesmo diante de alguns fatores que beneficiaram segmentos manufatureiros. A forte desvaloriza√ß√£o do dólar no ano passado favoreceu as exporta√ß√Ķes e as mudan√ßas na cesta de consumo dos brasileiros durante a quarentena, por exemplo, impulsionaram as vendas de produtos como material de constru√ß√£o, eletrodomésticos e móveis.

"O resultado da indústria poderia ser até pior", afirma a pesquisadora, acrescentando que segmentos relacionados ao agronegócio como indústrias de alimentos processados e de m√°quinas também se deram bem, na contram√£o da economia e da média do setor.

Pesquisa mensal do IBGE mostrou que a produ√ß√£o industrial brasileira voltou a crescerem maio, após 3 meses consecutivos de queda, mas que o setor ainda eliminou as perdas dos meses de fevereiro, mar√ßo e abril.

Dos 26 setores acompanhados pelo IBGE, 13 setores, ou seja, metade deles, ainda se encontram abaixo do pré-pandemia. Veja no gr√°fico abaixo:

Apenas metade das atividades industriais retomaram em maio o patamar pré-pandemia, segundo o IBGE.

Economia/G1

Baixa produtividade e competitividade

Estudo recente divulgado pelo Instituto de Estudos para o Desenvolvimento Industrial (Iedi) mostrou que a parcela da manufatura no PIB brasileiro em 2020 ficou 4,7 pontos percentuais (p.p.) abaixo da média global em 2020 e 2,1 p.p. ao excluir a China da média mundial.

"Desde o início do século XXI, o grau de industrializa√ß√£o brasileiro tem sido menor que da economia mundial e essa diferen√ßa vem aumentando. Em síntese, é um retrocesso de longo prazo que refor√ßa a tese de que se trata de um problema estrutural com v√°rios componentes – entre eles o Custo Brasil – e n√£o circunscrito a apenas um governo", destacou o Iedi.

A recupera√ß√£o de um maior protagonismo da indústria na economia é apontada como essencial para o país alcan√ßar maiores taxas de crescimento do PIB e níveis mais elevados de desenvolvimento, uma vez que produtos industriais s√£o os que mais possuem ramifica√ß√Ķes e conex√Ķes com múltiplos setores e pela capacidade de reduzir custos e agregar valor a produtos b√°sicos e por seu papel ofertante e demandante de tecnologias e inova√ß√£o.

Para Matos, no entanto, mais importante do que elevar o percentual de participa√ß√£o da indústria no PIB, é buscar ganhos de produtividade e uma maior eficiência e competitividade da economia brasileira como um todo.

"O importante é ser eficiente, n√£o importa em qual setor. Mas a produtividade do Brasil é inferior a de l√° de fora em todos os setores, e a indústria sofre mais porque é um segmento intensivo em capital e cada vez mais também em tecnologia e m√£o de obra qualificada, e isso é uma carência do Brasil", afirma a economista.

Indústria de SC cresce ao oferecer solu√ß√Ķes para indústrias virarem 4.0

Na contram√£o do setor manufatureiro, a Audaces é exemplo raro de indústria brasileira que tem conseguido crescer mesmo durante a pandemia.

A empresa de Santa Catarina desenvolve softwares e produz maquin√°rios para outras indústrias, sobretudo para o segmento têxtil, e registrou um crescimento de 20% no faturamento em 2020. Com o aumento do número de clientes, o número de funcion√°rios que era de 170 antes do início da pandemia aumentou para 200.

A estratégia é focada na inova√ß√£o e no desenvolvimento de produtos e solu√ß√Ķes que ajudam outras empresas a reduzir custos, automatizar processos e melhorar a eficiência na indústria de moda.

Audaces, de Santa Catarina, fabrica m√°quinas de corte de tecidos automatizadas, que reduzem custos e o desperdício dos materiais utilizados.

Divulgação/Audaces

A empresa nasceu em 1992 atuando apenas no desenvolvimento de softwares e, desde 2000, se transformou também em indústria. Atualmente, possui mais de 15 mil clientes em mais de 70 países.

A companhia fabrica m√°quinas digitais e autom√°ticas para confec√ß√Ķes têxteis, e desenvolveu também uma plataforma de gest√£o com tecnologias que integram desde a etapa de cria√ß√£o de pe√ßas e moldes até o controle da ordem de produ√ß√£o, permitindo que dados sejam enviados remotamente, até mesmo de fora da f√°brica, para os equipamentos de corte automatizados.

"N√£o é só uma m√°quina que corta sozinha. Temos clientes que conseguiram reduzir em mais de 30% o seu tempo de cria√ß√£o de cole√ß√£o e uma redu√ß√£o de mais de 20% do consumo de tecidos", afirma o diretor executivo Matheus Fagundes. "Quando tem uma crise, as empresas acabam olhando para dentro, como podem se tornar mais eficiente. Ent√£o, neste momento, a gente acaba ganhando espa√ßo e as nossas solu√ß√Ķes têm ajudado também a indústria a se tornar mais 4.0".

"N√£o importa quanto a indústria vai ter de participa√ß√£o no PIB. A indústria vai ganhar mais protagonismo se for mais eficiente, n√£o com protecionismo ou subsídio. Por isso, a agenda precisa ser pró-produtividade, de melhora do ambiente de negócios, de reforma tribut√°ria, de melhoria da educa√ß√£o e de ado√ß√£o de tecnologias", resume Matos.

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Fonte: G1

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