De onde vem o que eu como: com gosto de sábado, feijoada ajuda a movimentar mais de R$ 40 bilhões no campo

Por Redação em 02/01/2021 às 08:31:36

Na cidade, a combina√ß√£o de carne de porco com feij√£o preto é cl√°ssica: veja dicas para ficar ainda melhor. No campo, aumento do consumo dos dois alimentos é o desafio. Feijoada: o prato que ajuda a movimentar bilh√Ķes de reais

Shutter

A feijoada é um pr√°tico típico do Brasil, e s√£o poucos aqueles n√£o gostam ou que n√£o provaram essa mistura de feij√£o preto com partes do porco – com uma pitada de carne bovina.

Café, trigo, leite... série do G1 mostra a origem dos alimentos

Esse prato junta duas cadeias importantes do nosso agronegócio: a cria√ß√£o de suínos e a lavoura de feij√£o, que movimentaram mais de R$ 40 bilh√Ķes em 2020.

Feijoada nossa de cada s√°bado

Arte G1

Nos dois casos, a produ√ß√£o se concentra no Sul. Na carne de porco, Santa Catarina, Paran√° e Rio Grande do Sul lideram os números no país. J√° o feij√£o preto vem, na maior parte, dos agricultores paranaenses, muito à frente dos gaúchos e catarinenses no top 3.

E, mesmo com números expressivos no campo, os dois setores buscam aumentar o consumo desses alimentos no país. A carne suína é apenas a terceira mais comprada, j√° os agricultores observam as pessoas comendo menos feij√£o ano após ano, além da dependência da Argentina (leia mais abaixo).

Gosto de folga

O chef Marcelo Bastos é dono de um dos restaurantes de comida brasileira mais famosos na cidade de S√£o Paulo, o Jiquitaia. Ele conta que a inspira√ß√£o partiu dos avós, que também eram cozinheiros.

"Meus avós por parte de m√£e tinham um restaurante popular, e tinha muito de cozinha brasileira e queria resgatar um pouco dessa cozinha deles, comida de vó. O Jiquitaia partiu dessa cozinha tradicional e a busca por outras comidas tradicionais", diz.

A feijoada foi um dos primeiros pratos do menu do restaurante

Jiquitaia/Divulgação

Bastos conta que, ao montar o estabelecimento, em 2012, a feijoada foi uma das primeiras escolhas para o card√°pio. N√£o por acaso, é hoje um dos pratos mais vendidos do restaurante, mesmo sendo servido apenas aos s√°bados.

O chef explica que uma boa feijoada deve ter os miúdos. O motivo é que o col√°geno desses cortes ajuda na textura do caldo, para que ele n√£o fique muito aguado.

"O que eu mais gosto na feijoada é essa variedade de cortes e texturas, é um prato "sinfônico". Uma feijoada para ser boa tem que ter orelha, pé¬Ö cozidas no ponto certo, para cada mordida ter um som."

Feijoada teve aumento médio de 22,36% em 12 meses

Por muitos anos, existia a vers√£o de que o prato teve origem entre os escravizados, que receberiam os miúdos do porco para comer.

Porém, com o passar dos anos, se viu que vers√£o n√£o tinha sentido, visto que a escassez de carne era grande naquele período, e os fazendeiros aproveitavam todo o animal.

"A feijoada é um prato de origem Ibérica, ali na Espanha e Portugal. Puchero, cozido, cassoulet, feijoada... s√£o todas varia√ß√Ķes do mesmo tema. É um prato simples, camponês", explica Marcelo Bastos.

Chef Marcelo Bastos, propriet√°rio do Jiquitaia

Jiquitaia/Divulgação

No preparo de seu restaurante, a defuma√ß√£o dos cortes e os embutidos s√£o feitos na casa. Quando n√£o, s√£o comprados de produtores artesanais. Mas, para quem quer fazer algo para família e amigos, o chef d√° as dicas.

A sugest√£o de preparo é a seguinte:

Linguiça (não precisa ser paio);

Carne seca bovina;

Costela suína defumada;

Lombo;

Rabo;

Orelha;

Língua;

Pé.

"Mesmo que não queira comer, precisa colocar. Depois, tira", reforça o chef.

Para refogar:

Cebola;

Alho;

Pimenta de cheiro;

Coentro;

Cominho;

Toucinho;

Cachaça envelhecida (opcional).

Com o caldo j√° em preparo, é indicado utilizar algumas raspas de laranja para trazer acidez e "quebrar" um pouco a gordura.

Se você deixar o feij√£o de molho de um dia para o outro, é possível fazer sem panela de press√£o, cozinhando por 3 horas. Sen√£o, você pode preparar na press√£o por 40 minutos após a panela "apitar".

Para o arroz, nenhum segredo, a receita de sempre. No molho de pimenta, a dica é utilizar a malagueta e, na farofa, azeite de dendê em vez do tradicional. A couve só precisa de um refogado simples com alho.

E está pronta! O dia para comer pode ser qualquer um, mas o fim de semana sempre acaba sendo uma boa opção.

"A feijoada tem cara de s√°bado, as pessoas sentem o gosto da folga", completa Bastos.

Além da famosa feijoada, o restaurante também trabalha outros cortes do porco, como a barriga para o preparo do torremos e a bochecha, um prato que n√£o é muito comum no país, mas que é bastante consumido na Europa.

Torresmo é uma das entradas mais vendidas do restaurante

Jiquitaia/Divulgação

"Eu tenho apre√ßo muito grande pelo aproveitamento total, e o porco é o que se consegue trabalhar melhor. Temos acesso mais f√°cil no mercado a cortes menos nobres, o que é mais difícil com a carne bovina e ovina, por exemplo."

A vez do porco

A produ√ß√£o de carne de porco est√° em pleno crescimento no país, com incremento na produ√ß√£o de cerca de 4%, segundo a Associa√ß√£o Brasileira dos Criadores de Suínos (ABCS).

O bom momento coincide com a dificuldade da China, maior consumidora e produtora desta carne. Os chineses enfrentam, desde o final de 2018, uma severa crise de peste suína africana, que dizimou milhares de rebanhos pelo país.

Por que o PF ficou mais caro em 2020?

A estimativa é que os chineses tenham um déficit de carne em torno de 20 milh√Ķes de toneladas e precisaram ir às compras, enxergando o Brasil como um fornecedor confi√°vel. As vendas para a China cresceram 40% entre janeiro e novembro do ano passado.

Consumo aquecido faz criadores de porcos de MG receberem o maior valor da história

Apesar do crescimento, os criadores brasileiros n√£o conseguem dar conta de toda a demanda. Atualmente o país produz pouco mais de 4 milh√Ķes de toneladas de carne suína, sendo que 80% fica no mercado interno.

E é justamente neste ponto que o setor busca engrenar. Atualmente, a carne de porco é a terceira mais consumida no país (17,5 kg por pessoa ao ano), muito atr√°s das proteínas de frango (45 kg) e bovina (27 kg).

"Ao logo dos últimos 5 anos, vimos um aumento de consumo per capta de 8 kg, é muito interessante. O frango est√° no seu limite e o bovino caindo em fun√ß√£o dos pre√ßos. Nosso pre√ßo est√° mais convidativo", explica o presidente da ABCS, Marcelo Lopes.

"A carne mais consumida no mundo é a suína. A Europa consome muito, a √Āsia¬Ö existe no mundo j√° essa tendência. A Europa consome mais de 30 kg por ano, e o Brasil tem uma perspectiva gigantes para aumentar esse consumo", acrescenta.

A aposta nesse crescimento vem de uma mudan√ßa de estratégia que come√ßou h√° muitos anos. Os criadores trabalharam para mudar a imagem da carne de porco, que era associada a gordura vista como nada saud√°vel.

"Até os anos 1970, os animais tinham sua característica voltada para a produ√ß√£o de banha, que era muito usada no preparo das comidas e para conserva√ß√£o das carnes. Quando entrou o óleo vegetal, você deixou de usar essa banha", diz Lopes.

"Nessa época, os produtores come√ßaram um trabalho de mudan√ßa de tecnologia. Hoje, conseguimos um rebanho todo voltado a uma carne extremamente magra e com alimenta√ß√£o saud√°vel, além de ter um custo muito interessante frente à carne bovina."

O passo seguinte foi acostumar os consumidores a carne de porco além da feijoada. Nos últimos anos a indústria come√ßou a diminuir o peso dos cortes do animal para consumo do dia-a-dia.

Com nomes que lembravam a carne bovina, como a picanha suína, o filé mignon suíno, as pessoas come√ßaram a associar e a comprar mais.

"A gente porcionou o suíno. Antes, você tinha um pernil de 5 kg e a costela de 4 kg. Nós adaptamos à realidade brasileiras e trouxemos muitos cortes parecidos com os bovinos, houve um marketing em cima disso", afirma o presidente da ABCS.

Exporta√ß√Ķes recordes de carne de porco em 2020 animam criadores do RS

O objetivo é tentar alcan√ßar uma expans√£o que a carne de frango alcan√ßou nos anos 1990, quando o pre√ßo mais baixo e a qualidade do produto conquistou o consumidor brasileiro.

"Quando a gente aumenta um 1 kg per capita, s√£o 90 mil novas matrizes, é um crescimento bem substancial (de produ√ß√£o)", diz Lopes.

Atualmente, s√£o mais de 40 milh√Ķes de porcos no país, de acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

O setor conta com 20 mil produtores empresariais e, se levar em conta os de subsistência e menos tecnificados, o número passa de 1 milh√£o. A atividade gera cerca de 1 milh√£o de empregos diretos e indiretos.

Menos feij√£o no prato

O consumo também é o desafio dos produtores de feij√£o. Só que a situa√ß√£o é outra: os brasileiros est√£o comendo menos esse alimento t√£o comum no dia-a-dia.

Anos atr√°s o consumo era de 17 kg por pessoa ao ano e, atualmente, este índice est√° em 14 kg.

"Vivemos uma situa√ß√£o estranha, muitos comentam que o consumo caiu, mas ser√° que caiu ou é porque temos uma disponibilidade menor e pre√ßos mais altos?", questiona Marcelo L√ľders, presidente do Instituto Brasileiro do Feij√£o (Ibrafe).

Isso porque a √°rea plantada no país caiu cerca de 40% entre 2015 e a previs√£o para 2021. Diante de um mercado incerto de pre√ßos, os agricultores optam por gr√£os mais rent√°veis e com previs√£o de valores, como a soja e o milho, itens que o Brasil exporta muito.

Outra dificuldade é que n√£o existe apenas uma variedade produzida no país, e o consumo do brasileiro é bem peculiar. Embora famoso na feijoada, o feij√£o preto é apenas o segundo mais consumido no país, muito atr√°s do tipo carioca.

Alta temperatura e falta de chuvas prejudicam produção de feijão no Paraná

O feij√£o carioca é um h√°bito quase que 100% brasileiro, nenhum outro país produz essa variedade em escala comercial para que possamos importar. Ou seja, em caso de quebra de safra ou diminui√ß√£o da produ√ß√£o, n√£o temos mercados para recorrer.

No caso do feij√£o preto, h√° uma dependência do alimento produzido na Argentina. Porém, o setor enfrenta crise no país vizinho e a importa√ß√£o foi mais difícil em 2020.

Por isso, L√ľders defende que o setor comece a apresentar alternativas para o consumo de outros feij√Ķes: o vermelho e o fradinho, por exemplo¬Ö tipos que o mundo tem disponível e que ser√° possível comprar em caso de escassez.

"Precisamos levar conhecimento da população para detalhes que eles desconhecem do feijão. Tem muito mais que o feijão carioca e o preto, dá para variar as receitas", diz.

Outro caminho é conseguir profissionalizar o mercado por dois caminhos: negocia√ß√Ķes mais previsíveis, com as indústrias antecipando negócios, e as exporta√ß√Ķes.

"O consumo de feij√£o est√° caindo no Brasil, mas os Estados Unidos est√£o aumentando o consumo, a Europa também. Na pandemia, o consumidor viu que o feij√£o é barato, saud√°vel, alimenta e é f√°cil de se preparar", explica.

A China, principal parceira comercial do agronegócio, decidiu importar feij√£o em vez de produzir, e é um outro grande mercado que o Brasil negocia para abrir e que pode dar mais previsibilidade para os agricultores.

"Um dos motivos que levam o agricultor a produzir menos é a falta de previsibilidade da tendência de pre√ßos. Até 5 anos atr√°s, n√£o tínhamos referências críveis, era um mercado sujeito a manipula√ß√£o", afirma L√ľders.

O setor ainda foca em dar mais rastreabilidade ao feij√£o e também busca que o alimento seja item obrigatório na merenda escolar.

Mais vídeos da indústria-riqueza do Brasil

Fonte: G1

Comunicar erro
Coronavirus 728x90
InfoJud 728x90

Coment√°rios